domingo, 8 de dezembro de 2024

A INDEPENDÊNCIA DO DIVÃ

 

                Por pouco tempo se deitar no divã pode ser mais confortável do que se imaginaria... Ou mesmo o que tudo significa, quando se cita um divã, o tratamento da psicanálise, toda a simbologia do nome, o que requer que seja a sua função, posto todo o conforto, toda a confiança em que uma sala pode colocar um paciente à vontade. Freud cria o divã como mobília indispensável a que o analisando possa falar livremente, com a postura relaxada, com a mente livre para poder divagar sobre tudo o que lhe vier à mente, e isso fala à prática mesma da psicanálise, indo de todo um arcabouço teórico para a situação onde o analista começa e investigar o mundo inconsciente de seus pacientes: essa é a essência da questão toda. No começo há a primeira entrevista, o contrato, etc, estabelecem-se os padrões e horários de como se vai fazer a terapia, que pode ser abordada de vários modos, pois na atualidade há vários processos terapêuticos, mas Freud inaugura com o divã e a livre associação de ideias o pressuposto do método em que um paciente pode falar livremente, de modo a permitir ao analista sua interpretação, um tópico tão crucial entre a relação do terapeuta com o cliente.

                É importante salientar a relação entre o paciente e o analista, seu vínculo, a transferência que por vezes ocorre, ou mesmo a contratransferência. O vínculo terapêutico se estabelece como uma relação onde o paciente confia no terapeuta, se sente à vontade, por vezes se dando a transferência, quando o paciente deposita no terapeuta ou nele projeta uma figura paterna, fraternal, ou mesmo uma condição subjetiva, ilusória. Pode ocorrer, na contratransferência, um sentimento onde o terapeuta vive sentimentos de seu paciente, se sente envolvido pela realidade daquele, e por vezes se envolve afetivamente nessa questão; mas há que se acautelar, mantendo-se vigilante a esse tipo de processo, pois se por um lado a transferência ou a contratransferência seja positiva no estabelecimento do vínculo, o analista deve sempre observar o óbvio distanciamento profissional, e ater-se à interpretação do analisando, seus recalques, seus traumas e ruídos que brotam do inconsciente, buscando sempre montar o quebra-cabeças de modo lógico, racional, o que pode durar um tempo razoável... Há casos em que um tratamento dura muito tempo, mesmo em pacientes não psicóticos, pois há questões de neurose que se auto alimentam no dia a dia de muitos, e a questão da psicoterapia em alguns casos é uma questão de alívio existencial, de poder se expressar na forma mais plena com um especialista, pois há pessoas que dependem da terapia, por vezes durante toda a sua vida.

                O divã, simbolicamente representado pelo móvel onde o analisando se senta ou deita para realizar sua consulta, ou terapia, deve estar em uma sala onde o paciente se sinta bem, se sinta sempre confortável, e será depois de algum tempo que ele desenvolverá – o paciente – a confiança necessária com relação ao analista, posto quando falar sem barreiras, livremente, há já que estar bem desinibido e sem as resistências que por vezes ocorrem quando se há que falar sobre o que acontece no nosso mais íntimo ser, o que porventura nos ocorrera no passado de algum trauma, nossas inquietações existenciais profundas, ou mesmo atos ou palavras que quando proferimos a outra pessoa nos deixariam vexados... O que há no mundo e em nossa civilização é que todos os que temos condições de nos analisar com um psicólogo ou psicanalista, esse fato nos coloca em vantagem com relação ao mundo tal como está, pois estaremos nos preparando melhor para nos conhecer e aos outros que tanto por vezes nos causam ruídos, causas de tantas neuroses, e fugas paliativas para o álcool e outras substâncias, na ponta do que acontece com muitos que buscam apenas se anestesiar perante os problemas ao invés de enfrentá-los, como se deve. Fugimos por vezes de nós mesmos, e a prática da terapia e seus mecanismos apenas se dá com a função de que, falando sobre os problemas que tivemos no passado, tenhamos mais fortalecimento para vencer os recalques que ficaram soterrados em nosso inconsciente, e o terapeuta é que dá a sua interpretação sobre o que ocorre, mas na realidade ele está no universo do “não saber”, apenas diz por experiência clínica o que pode estar nos afligindo dentro de nosso imo.

                A prática do terapeuta infere que este esteja sempre se atualizando, para saber sua real posição dentro de seu trabalho, que na contratransferência que pode muitas vezes se dar, assim como em episódios recorrentes de resistência ao tratamento: quando o paciente se nega a revelar algo que lhe dá imensa angústia, por exemplo, essa prática de atualização permite ao terapeuta estar bem posicionado nos casos mais difíceis, e manter um afastamento necessário de algum ruído que o possa afetar em seu processo analítico. Na realidade, muitos são as interpretações e terapias na psicologia contemporânea, mas especialmente na psicanálise o divã ainda é um bom recurso a ser utilizado, pois cria um ambiente confortável, conforme acima explicado, que estreita ainda mais o vínculo terapêutico e estabelece laços em que a relação entre analista e paciente venha a prosseguir até se obter a alta do paciente, posto ser esse ofício, “quase que um médico da alma”, que faz do analista ser tão importante no mundo contemporâneo, com todas as suas inquietações e dificuldades que afligem a nós, seres humanos que somos todos...

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