Por
pouco tempo se deitar no divã pode ser mais confortável do que se imaginaria...
Ou mesmo o que tudo significa, quando se cita um divã, o tratamento da
psicanálise, toda a simbologia do nome, o que requer que seja a sua função,
posto todo o conforto, toda a confiança em que uma sala pode colocar um
paciente à vontade. Freud cria o divã como mobília indispensável a que o
analisando possa falar livremente, com a postura relaxada, com a mente livre
para poder divagar sobre tudo o que lhe vier à mente, e isso fala à prática
mesma da psicanálise, indo de todo um arcabouço teórico para a situação onde o
analista começa e investigar o mundo inconsciente de seus pacientes: essa é a
essência da questão toda. No começo há a primeira entrevista, o contrato, etc,
estabelecem-se os padrões e horários de como se vai fazer a terapia, que pode
ser abordada de vários modos, pois na atualidade há vários processos
terapêuticos, mas Freud inaugura com o divã e a livre associação de ideias o
pressuposto do método em que um paciente pode falar livremente, de modo a
permitir ao analista sua interpretação, um tópico tão crucial entre a relação
do terapeuta com o cliente.
É
importante salientar a relação entre o paciente e o analista, seu vínculo, a
transferência que por vezes ocorre, ou mesmo a contratransferência. O vínculo
terapêutico se estabelece como uma relação onde o paciente confia no terapeuta,
se sente à vontade, por vezes se dando a transferência, quando o paciente
deposita no terapeuta ou nele projeta uma figura paterna, fraternal, ou mesmo
uma condição subjetiva, ilusória. Pode ocorrer, na contratransferência, um
sentimento onde o terapeuta vive sentimentos de seu paciente, se sente
envolvido pela realidade daquele, e por vezes se envolve afetivamente nessa questão;
mas há que se acautelar, mantendo-se vigilante a esse tipo de processo, pois se
por um lado a transferência ou a contratransferência seja positiva no
estabelecimento do vínculo, o analista deve sempre observar o óbvio
distanciamento profissional, e ater-se à interpretação do analisando, seus
recalques, seus traumas e ruídos que brotam do inconsciente, buscando sempre
montar o quebra-cabeças de modo lógico, racional, o que pode durar um tempo
razoável... Há casos em que um tratamento dura muito tempo, mesmo em pacientes
não psicóticos, pois há questões de neurose que se auto alimentam no dia a dia
de muitos, e a questão da psicoterapia em alguns casos é uma questão de alívio
existencial, de poder se expressar na forma mais plena com um especialista, pois
há pessoas que dependem da terapia, por vezes durante toda a sua vida.
O divã,
simbolicamente representado pelo móvel onde o analisando se senta ou deita para
realizar sua consulta, ou terapia, deve estar em uma sala onde o paciente se
sinta bem, se sinta sempre confortável, e será depois de algum tempo que ele
desenvolverá – o paciente – a confiança necessária com relação ao analista,
posto quando falar sem barreiras, livremente, há já que estar bem desinibido e
sem as resistências que por vezes ocorrem quando se há que falar sobre o que acontece
no nosso mais íntimo ser, o que porventura nos ocorrera no passado de algum
trauma, nossas inquietações existenciais profundas, ou mesmo atos ou palavras
que quando proferimos a outra pessoa nos deixariam vexados... O que há no mundo
e em nossa civilização é que todos os que temos condições de nos analisar com
um psicólogo ou psicanalista, esse fato nos coloca em vantagem com relação ao
mundo tal como está, pois estaremos nos preparando melhor para nos conhecer e aos
outros que tanto por vezes nos causam ruídos, causas de tantas neuroses, e
fugas paliativas para o álcool e outras substâncias, na ponta do que acontece
com muitos que buscam apenas se anestesiar perante os problemas ao invés de enfrentá-los,
como se deve. Fugimos por vezes de nós mesmos, e a prática da terapia e seus
mecanismos apenas se dá com a função de que, falando sobre os problemas que
tivemos no passado, tenhamos mais fortalecimento para vencer os recalques que
ficaram soterrados em nosso inconsciente, e o terapeuta é que dá a sua interpretação
sobre o que ocorre, mas na realidade ele está no universo do “não saber”,
apenas diz por experiência clínica o que pode estar nos afligindo dentro de
nosso imo.
A
prática do terapeuta infere que este esteja sempre se atualizando, para saber
sua real posição dentro de seu trabalho, que na contratransferência que pode
muitas vezes se dar, assim como em episódios recorrentes de resistência ao
tratamento: quando o paciente se nega a revelar algo que lhe dá imensa
angústia, por exemplo, essa prática de atualização permite ao terapeuta estar
bem posicionado nos casos mais difíceis, e manter um afastamento necessário de
algum ruído que o possa afetar em seu processo analítico. Na realidade, muitos
são as interpretações e terapias na psicologia contemporânea, mas especialmente
na psicanálise o divã ainda é um bom recurso a ser utilizado, pois cria um
ambiente confortável, conforme acima explicado, que estreita ainda mais o
vínculo terapêutico e estabelece laços em que a relação entre analista e
paciente venha a prosseguir até se obter a alta do paciente, posto ser esse
ofício, “quase que um médico da alma”, que faz do analista ser tão importante no
mundo contemporâneo, com todas as suas inquietações e dificuldades que afligem
a nós, seres humanos que somos todos...
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