Se um
homem chamado Jung tivesse alcançado o valor de uma palavra tão “versátil”, e que navega,
sem dúvida pelo inconsciente do ser humano, como a “sombra”, quem dera nos encontrássemos
com toda a realidade, mas olhamos para a árvore e o que chama mais das vezes a
atenção, senão a paz de uma dualidade que encontramos em um dia de verão: o sol
calcinante, e a sombra que dá uma boa repousada, em um banco de praça... Ou
mesmo o velho reflexo de nossos gestos, o teatro com as mãos, na parede, sob a
luz projetada sobre elas, o influxo de nossos erros, tanto a se aprender com o
sistema: quem sabe a IA seja a sombra do intelecto humano? A alguns que encontram
na ira sua sombra, a ira sobre a intelectualidade, sobre o pensamento e sua
liberdade expressiva, quiçá não encontrem nele mais do que aquele sol que
prejudica o ressurgimento da noite, onde a turvação apenas permite que o álcool
e as drogas perfaçam a Natureza do que tenham por ser ideia. Obter um indulto
diário, uma confidência amistosa com esse sol, não seria mais conveniente?
A simples
esfera da consciência não seria tão abrangente, se não fosse o termo inicial
para se ter a noção mais evidente de que alguns seres que passaram por aqui
tinham esse principal requisito essencial... Cristo era um deles, senão o maior
de todos, pois por que colocar à prova seu sofrimento, se a partir do momento
em que um devoto crê piamente que sua própria sombra é seu sofrimento, que
teria que sofrer o pão que o diabo amassou, passa-se algo oposto, e o devoto
encontra no milagre aquele não sofrer necessário para redescobrir na palavra
que a sua própria mais não é do que a sombra da palavra d’Ele. O que seria o
mistério da vida não importaria mais tanto, posto de homens fortes e valentes o
mundo não está tão cheio, mas de ressuscitados temos Lázaro, pelas mãos do
Salvador, e deste, pelas mãos de Deus Pai. O que zelamos por redescobrir em nós
mesmos não é propriamente a leitura do Evangelho pura e simplesmente, mas
principalmente pela meditação em que um bom sacerdote orienta o leigo.
Quando de
um sacrifício pesado, estamos vivendo uma questão existencial que pode parecer “sombria”,
turva, que nos torna por vezes fracos e exangues, mas que em um despertar de um
novo dia pode ser a essência mesma da experiência em que alguns companheiros
diletos esboçam sua paciência e comiseração ao trabalho que empreendemos no
mínimo para aprumar nossa fé. E, por que não, no Salvador, esse Jesus, essa
nosso querido Cristo? O voto de celibato de um homem pode não apenas ser bom
para ele, como o prepara nessa missão, e assim, quem sabe, se tornará mais
distante de ruídos ou sombras que esse ser sinta ou pressinta não serem
alvissareiras. Não será através apenas da gratidão que ele será redimido, mas
da argumentação contra a morte de si mesmo enquanto homem que se despe de antigas
amarras, e toca a superfície de sua própria dor, para ao menos sentir que nem
tudo são flores ao sul do Equador. Justamente o oposto, os cristais de chumbo
são tão frequentes no mundo que, ao menor sinal deles, criaturas sinistras se
apropriam de muitas coisas, pertencidas à Natureza divina do ser humano. Quiçá
sejam projeções culturais, quem sabe não se saiba muito sobre propriedade
privada, e nem sobre a liberdade de expressão no contexto do planeta! Podemos,
se quisermos, dar cada vez mais espaço a nós mesmos no sentido de ampliar
nossos horizontes no sentido da comunicação, da leitura, dos estudos, do ensaio
e erro, da latitude das imagens, da fotografia e mesmo da comunhão com a
Palavra de Deus, e esse espaço é nos concedido sem óbices maiores que não seja
a proximidade em termos ciência de não faltar com a verdade, de citarmos coisas
com fundamentos verazes e pertinentes, ou mesmo navegarmos por um non sense ao
estilo de Joyce. Ou mesmo sairmos à melhor moda de Bréton, no melhor estilo
surrealista, posto na libertação de uma frase estará aquilo que de melhor
encontraremos na arte da poesia, na crônica, ou mesmo em uma reportagem
verdadeira, jamais incorrendo no erro das fake News.
As
sombras navegam por entre nós, e as luzes são tão bem vindas que dissipam muito
do que consideramos certos climas de trevas, pois não haveria mais condição de
termos dias conformes com situações de paz verdadeira, se não aceitássemos
certos conflitos como resultado de uma dialética que faz parte de toda uma
dianteira, diante de nós e de todos os que se espelham na Natureza essencial de
cada um...
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