Certa
vez um psiquiatra me disse: você está na religião, mas não torne-se fanático...
Aquilo pegou firme, pois muito do que creio agora lembra algo meio insano, de crermos em um Poder Superior a nós mesmos, e acredito que meu mal é estar
viciado em nicotina, pois do álcool já estou em recuperação, mas mesmo assim,
hoje especialmente me voltei muito para uma religiosidade baseada nas
escrituras, mesmo que a religião que escolhi pareça um panteão algo fantasioso
ao olhar de uma ciência mais ortodoxa... Toda a espiritualidade que acolhi e
estudei no dia de hoje segue a prosseguir agora durante toda a minha vida,
inclusive nos momentos em que meditei na japa mala dos krsna, como algo que me
desviou da vontade de fumar, e recém há meia hora atrás completei 24 horas,
depois de quedas sucessivas nos dias que precederam o hoje, que ainda não
terminou e somará 30 horas de recuperação.
Hoje,
seguiu sendo a ponta de lança a busca incessante pela espiritualidade, e faço
votos de renúncia como um sanyasi que
deixa as coisas mundanas de lado e se dedica a Krsna como deidade, fato, Natureza, e suas expansões que encontro
não apenas nas citações literárias, bem como na prática da meditação e nos
cantos devocionais dos mantras sagrados. A aura de que as ilusões estão por aí,
na forma a mais vária, a vida das pessoas, seu corre-corre, as diversas
adições, o alcoolismo, os grupos de recuperação, tudo para mim funciona agora
como uma orquestra onde tento escutar o silêncio que precede movimentos
pianíssimos, ou adágios brutos com verdadeiras baterias de escola de samba, que
invadem meu ser por vezes, apenas internamente, de onde refugio-me em casa e
busco a serenidade espiritual nos livros, na reflexões, e na permanência da
sobriedade longe da tentação do vício. Pensara por momentos que não teria
energia nem capacidade lógica de escrever o que quer que fosse, mas uma vida em
estudo permanente sói nos dar uma capacitação, sobretudo se em todas as
atividades depositamos uma fé pétrea que apenas corrobora a competência da expressão
e a possibilidade nada remota de que as linhas que escrevemos possam auxiliar
buscadores, como eu...
O fato
de ter ficado um dia imerso em profunda vida anímica, falando com Deus o tempo
todo, espelhando nos outros viventes a riqueza de cada qual, mas me reservando
a privacidade dessa descoberta consciente, me torna afeito a que prossiga mais
silente e circunspecto diante da magnitude da missão perante eu mesmo, diante
da qual, hoje recém à noitinha, quando medi com o oxímetro minha oxigenação e
resultou 98 no sangue, uma taxa normal, fiquei surpreendido com a luz que
passei a encontrar no fim do túnel, de onde só via a escuridão, e por onde
passei por momentos sinistros nos últimos meses de adicção ininterrupta com o
tabagismo via de regra: de todos, o pior vício que já enfrentei na minha
existência de homem que já fracassara inúmeras vezes em sua vida por questões
dessa Natureza.
A
beleza que encontro não é apenas romper os grilhões do vício, ou estar em vias
de, mas encontrar a possibilidade de, em um tomo de 900 páginas de pura
espiritualidade, saber que a coleção que se chama Sri Caitanya Caritamrta, eu a
possuo em mais quatro volumes, a saber, tenho um material que degustarei para
toda a eternidade, literalmente... Sem contar a edição ilustrada do Ramayana,
em inglês, que é belíssima, e que conta a história em que o grande Shiva vivia
a meditar nela, a história do rapto de Sita e todo o épico que narra essa
pérola dos Shastras. E outras literaturas mais, ademais, as da irmandade de
recuperação, que igualmente, esta irmandade que deu o start para a minha recuperação, que é
realmente o esteio em que um adicto alcoólico em recuperação, agora parece,
pelo menos a este humilde servidor de Deus, dá a impressão que sairá do vício
da nicotina, pela graça do Poder Superior, e a companhia indispensável de bons
companheiros...
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