A dissociação psíquica na psicose se distingue da neurose no recalque e o retorno do recalcado desta, este um discurso possível, distinto, daquilo que o médico pode assentir seja simbolicamente algo mais palpável, no que perfaz que o discurso seja dissecado desde seus aspectos da pulsão reprimida, mas encontrada em um objeto que não distancie tanto de um princípio de realidade que se processa na mente mais desavisada de todo o analista que espera de um tratar-se o doente de seus sintomas mais evidentes. Na psicose, a fala fica dissociada, como em um caso particularmente sintomático, objeto de estudo de Freud, o caso Schreber. Neste, o narcisismo invade o corpo em um discurso repleto, na forma de escrito contínuo e publicado, onde o delírio se torna uma acepção crua do fenômeno de castração, e o amor pelo pai, em uma negação da bissexualidade fora sempre um apanágio de estar em um amor com Deus, na forma nervosa e literal, na forma de visão de uma trama onde a homossexualidade de Schreber toma o vulto de se estar na posição da mulher do Criador, com todos os nervos, como uma imensa teia visualmente quase tátil, unida a ele, na transmutação dessa “nevralgia” exposta, na forma quase vã de estabelecer uma conexão improvável e se auto explicar a psicopatia – repito – na forma de um livro publicado em torno de quinhentas páginas, um tipo de autobiografia onde se expõe visceralmente tudo a que fora submetido pelo pai, as máquinas posturais, em uma época na Alemanha, onde havia repressões comportamentais de toda a ordem incluso nas escolas, onde as mesmas máquinas posturais, seus ferros, foram adotadas pelas escolas através dos ensinamentos do pai do Presidente Schreber, digo presidente, pois Schreber fora convidado a assumir um alto cargo como presidente na área jurídica em seu tempo, até sua dissociação, posteriores internações e estudo clínico.
Ademais,
não fora por seu discurso praticamente alucinatório e condizente no entanto com
uma razão efetivamente profunda e com sentido metafórico amplo, o que dista de
seu discurso e as complicações de linguagem, condição para se estabelecer as
demandas do trato com as psicoses, conforme citado no Seminário 3 de Lacan, é
justamente esse distanciamento a uma referência palpável, é tornar um delírio
algo passível de observação acurada de Freud à época, tanto lhe chamara a
atenção o texto e sua fuga da realidade. A mesma realidade que sobre espaça ser
um fato o ateísmo de Freud algo que na realidade o impediria de ver que, em
Schreber não haveria sequer quiçá a possibilidade de um espaço dedicado à
espiritualidade, mesmo porque em certos casos de psicoses, justamente a doença
se pronuncia em base da dissociação, por vivermos em um tipo de Era em que
temos que optar por crenças impostas, e quando se está vivenciando uma
repressão sem limites, como foi o caso da infância do caso em questão com
relação ao seu pai, e toda a sua formação acadêmica exemplar, culminou que a
impossibilidade de dar vazão a pulsões as mais profundas, a dissociação veio à
tona, previsivelmente, o que torna a eclosão do surto psicótico por vezes a culminação
supracitada em que o que se tenha por determinar na ótica da medicina de um
cientista como Freud, no mais, fosse ao menos uma curiosidade acadêmica sobre
um homem que sofrera profundamente a questão de uma doença mental onde à época
certamente não havia medicamentos que levassem a termo um equilíbrio psíquico,
no que Lacan no seu Seminário 3 busca explicar com muita propriedade, mas que em
casos como esse a psiquiatria contemporânea já teria como atalhar, mesmo em
surtos de psicoses esquizofrênicas ou similares, posto por mais processual que
fosse o caso ainda era de um particular como particular, ou, em síntese, mais
uma doença da alma.
Lacan afirma, em seu mesmo Seminário 3 que, se Schreber tivesse enveredado pelo terreno da poesia, ou seja, se sua arte descritiva, sua espécie de romance ou autobiografia houvera sido escrita por meio de excertos poéticos, haveria de encontrar no universo da compreensão humana muito a se dispor no se compartir de um universo de significação da linguagem. Sobre a relação praticamente conjugal com Deus, ou na sua concepção, a consciência de que em essência nada nos faz diferentes em gênero ou em grau com a essência do ser humano, isso transcende o pensamento freudiano ou lacaniano, já que somos unos enquanto homens e mulheres, e que na época de Freud sequer se teria noção do que viria a ser um transexual em nosso mundo contemporâneo, com tantas as preferências sexuais e tantos são os novos gêneros... Muito haveria de haver na compreensão mesma do que vem a ser uma abordagem mais atualizada dos sucessores de Freud, o que veio depois, e como a psiquiatria moderna está abordando temas bem mais complexos do que apenas um delírio de um paciente como Schreber que, aliás, jamais fora paciente de Freud, pois este buscou tratar apenas os casos de neurose, não ultrapassando sequer as graves, como as obsessivas.
Freud, em seu “O Mal Estar da Civilização”, renega desde o início os Vedas, em uma crítica a esse tipo de religiosidade, e nega Deus desde o início, apesar de ter criado a psicanálise e suas duas tópicas, o que não deixa de ser merecedor de atenção de toda a classe médica. No entanto, será na literatura védica: “O Néctar da Devoção” que encontraremos a rasa transcendental nomeada Madhurya, ou seja, a relação conjugal com Deus, como a expressão máxima da devoção e da rasa transcendental com Krsna por parte de um devoto, seja homem ou mulher. Mesmo porque, em outras passagens dos Vedas, em outros passatempos transcendentais, aparece a forma de Mohini Murti, a encarnação mulher de Krsna, o que vem a corroborar plenamente que nem tudo na linguagem de Schreber quiçá estivesse errado, posto apenas não possuía sequer subsídios escriturais que compatibilizassem a Alemanha daquela época com a de hoje, que tão boas relações espirituais nesta era atual já passa a estabelecer com a Índia e sua realidade espiritual. Isso posto, revelar-nos-á que nem Freud estava distante de uma doença espiritual que afligiu a muitos doutores principalmente em uma era tão conturbada como na Alemanha dos anos trinta, e que a história já comunga de que podemos conceber um tipo de espiritualidade mais díspar e com liberdade total de credo, pois assim reza a democracia e a consecução de um mundo mais livre, e não certos retrocessos históricos onde a história do homem era a história de sua repressão ou auto flagelo.
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