Desde que nascemos, vemos o mundo e temos que respirar por nossa conta, sentimos a primeira dor, que nos tira de um conforto e nos expõe a uma realidade inesperada. Reza que para muitos psicanalistas quiçá o sofrimento dos seus pacientes seja, no viés da representação de um crescimento e desenvolvimento de um eu maior, manifesto, seguro frente a dura realidade de nosso mundo, principalmente na era conturbada em que vivemos, sob o signo diverso de culturas e tecnologias, fosse algo necessário… No entanto, não estaríamos procurando justamente algo que nos livre das inquietações pregressas, de coisa e barulhos que nos incomodam, tornando-nos patologicamente desequilibrados, e encerrados nos diagramas da CID em questões patológicas que afligem grande parte da humanidade mentalmente? O sofrimento seria tão compulsório assim, ou será que na realidade ou através dela descubramos novas formas de viver, sobriamente, do melhor modo, afeitos a uma realidade mais metafísica, ou vivenciando uma metáfora existencial onde nos permitamos plenamente um prazer maior, que seria estarmos dentro da citada realidade com os pés fincados nela, mas voando igualmente pelo território de nossos sonhos e galgando páginas e páginas de nossa história quiçá com a intenção de redescobrir o mundo, tal como o concebemos, ou como o compreendemos até agora, em ulteriores desenvolvimentos de escopo humano, sem que compulsoriamente havemos de ser definidos de modo estanque em uma tabela de doenças psíquicas?
O analista, com propriedade, há de investigar, sim, as causas do sofrimento humano, mas há também de abrir um espaço para que o pensamento e novas descobertas acerca do universo e do “humano” abra a mente de tal forma que a concepção de um Poder além de nós mesmos nos teça a conversação a respeito de muitos mistérios que nem Freud sequer cogitaria, mesmo porque houve profundas diferenças entre o seu pensamento e o de Jung, mas na questão das psicopatologias os progressos em sua identificação foram inegáveis. Algo de loucura no ar tergiversa com a cultura do mundo contemporâneo, pois antes o que seria um delírio do século XX hoje é manifesto de diversas formas na aparente forma do mundo tecnológico, onde em menos de um décimo de segundo toda a obra de Freud é retransmitida a quem queira, em qualquer lugar do planeta, contanto que a eletrônica e seus meios esteja presente. Quiçá muitas psicoses são originárias da parca compreensão da real dimensão de certos fatos, e a carência afetiva, as pulsões reprimidas por estados de controle do homem pelo homem, através de câmeras, a ocorrência brutal da ingesta de drogas, e a alienação mental e afluência da miséria sobre o planeta, certamente têm causado muitos males mentais no globo terrestre. Sob esse viés, talvez fosse bem conformista a visão de que o sofrimento é um “mal necessário”, posto por que seria que aqueles que dispõe de grande parte da riqueza concentrada em poucas mãos não sofreriam tanto, pois questões como moradia, saúde, afeto, amorosidade real, trabalho bem remunerado e outros detalhes, bem como mais na ponta que aflige grande parte da humanidade: a fome, não seriam a recorrência do sofrimento, e não nos que citamos que moram em mansões, que não sofrem tanto, ou mesmo que possuem a renda necessária para ter um terapeuta do lado como recurso para ser bem comportado em meio a tanta injustiça social no planeta…
É a questão máxima, e é igualmente a questão mínima, posto aquele que sofre nem sempre conhece a classe a que pertence, mas certamente a classe que enfrenta dificuldades e vive na extrema pobreza enfrenta sofrimentos e pressões psíquicas bem maiores do que aqueles que vivem na selva de concreto e possuem seus heliportos, viajam para a Europa todos os meses, nadam no mar do Caribe, ou vão tratar de sua unha encravada nos melhores hospitais do mundo. Obviamente, ironias à parte, devemos sempre saber que a escalada do capitalismo febril e selvático, da expropriação sem fronteiras do homem e suas liberdades individuais, do neocolonialismo e da exploração do trabalho da imensa maioria, poluição do meio ambiente e desastres climáticos como ocorre no nosso mundo da atualidade, aqueles que possuem sensibilidade mais aflorada acabarão por se situar na fila dos hospitais psiquiátricos, tendo que suportar tratamentos duros, pois como se diz, a cultura, a história, o modo de vida e a situação econômica de nossos entornos, não apenas mais restritos, como mais globais, inferem que a vida não é tão simples, mas na realidade mais pungente da mesma vida sofre aquele que passa pela carestia, e sofre obviamente muito mais do que aquele que vive confortavelmente, tem acesso ao cinema, ao teatro, faz um sexo regular com quem queira, não tem compromissos ou mesmo aqueles que parasitam de tal forma o sistema que se tornam a moeda corrente mais crua da “felicidade humana”.
Não precisamos ser hedonistas, mas Marcuse já falava, em seu “Eros e Civilização” do princípio de prazer e do princípio de realidade, e talvez saber da realidade como se apresenta à maioria da população mundial quiçá nada signifique ao “primeiro mundo”, e quem sabe o mesmo mundo ganhe mais medalhas ao atravessar as fronteiras quando oprime o terceiro com suas vilanias e interesses econômicos, com suas agências e agentes que a tudo concebem como erro, incluso a normalidade ou tentativa de ser normal de grande parte de um povo sofrido, que muitas vezes, perante a incredulidade particular em não viver sequer a decência da solidariedade humana, ainda segue vivendo e trabalhando sob os signos de uma humanidade decadente de um ocidente que procrastinou um processo civilizatório um pouco fracassado.
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