Quem
sabe o tempo, esse enigma inventado pelo homem na sua mensuração, fator que
remete a fatos, a memórias, a coisas que vão passando por nós em nossa
geografia, em nossos territórios, ou mesmo em áreas do conhecimento onde a
linearidade ainda seja biologicamente a constituição de nossos corpos, qual,
quem sabe a sinapse dos neurônios, quem sabe o bombeamento do coração,
sincopado, uma batida atrás da outra, onde respiramos a vida ela mesma que se
nos espere por vezes naquelas esquinas onde vamos buscar algo para se comer, ou
mesmo os ventos, esse enigma outro do clima, encerrem os fatores que não
conhecemos o suficiente para derrotar as nossas dúvidas... Sejamos ao menos
sensatos ao saber que o nosso corpo trabalha como uma totalidade, e a mente é e
faz parte inequívoca dele como projeção de um órgão que é tão maravilhoso que
demanda conhecimentos algo profundos, para uma medicina contemporânea: o
cérebro humano.
A
história do ser humano não cessa, e muitos pressupostos evolutivos quiçá
demandem que ao nosso passado, à nossa história e aos paradigmas de nossa
cultura mais remota, aos nossos ancestrais que desconhecemos no correr da
existência do antropos, quem sabe seríamos mais silenciosos do que meramente
dialogaríamos conosco mesmos ao sabermos que nem toda a psicologia
contemporânea encerra a última palavra a respeito do pensamento criado a partir
de laços com a ciência. A coisa concreta é que antes o que achávamos que não
tinha sentido, hoje faz parte da psique humana, como a espiritualidade e seus
universos. Sabemos intrinsecamente que Cristo faz parte grandemente da crença
do mundo Ocidental, e que Buda, na verdade, abraça em maior parte o mundo
Oriental. Seria precoce afirmar quem seria ele realmente, senão uma encarnação
de Krsna, que viera para ensinar aos homens para não comer carne, para não
matar os seres outros, para se respeitar melhor a Natureza, essencialmente,
pois criara na espiritualidade com outros seres essa vinculação que o Cristo,
igualmente pregara aos olhos de Seu Pai, ao afirmar para olharmos com mais atenção
os lírios do campo... Igualmente, se para um indígena, o desconhecimento de
Buda ou Cristo o faz conhecer os espíritos da Natureza, esses xamãs sabem bem
de sua cultura, e isso faz parte de uma diversidade de crenças que faz parte da
mesma Natureza material ou não da qual o homem faz parte. Até mesmo os materialistas
grosseiros merecem ser tocados em consideração, pois o ateísmo pode ser mesmo a
crença na matéria, e esta na realidade contém Deus, ou o mesmo está nela.
Cada
ser humano conhece seus encontros e desencontros com o que é, com o que está,
ou com o que não é sequer, e não está situado em lugar algum, seja o que for...
A forma em que o empirismo está para um homem da ciência como Jung, por
exemplo, é a melhor tradução de seu trabalho, como ele mesmo afirmou em seus
escritos, quando tentaram descrever o seu trabalho. Não se esperaria dele outra
posição, pois seus escritos tentam trazer os símbolos do inconsciente à tona e “O
Homem e Seus Símbolos”, terminado após seu falecimento, traz justamente maiores
luzes àqueles que querem compreender seu trabalho, as figuras dos arquétipos e
dos símbolos, com maior simplicidade, de um modo inteligível para o público leigo,
um livro fartamente ilustrado, com a colaboração de seus maiores parceiros de
estrada na linha jungueana.
As
questões do orientalismo na obra de Jung remetem a esferas onde as suas
pesquisas revelam a profundidade desse pensamento na história das civilizações,
e como é importante contar com aquelas com milênios de existência, como modo
sólido de traduzir culturalmente arquétipos muito antigos, e revelar ao mundo uma
ciência que o mundo Ocidental sequer cogitava existir, há décadas atrás. Hoje,
depois de um rápido crescimento do mundo Oriental na economia, esse
desenvolvimento tecnológico e fabril faz crescer ao mundo do lado da América,
África e Europa, principalmente, conhecimentos que até então eram
desconhecidos, mas na realidade não há mais conflitos culturais relevantes, pois
a mesma tecnologia une os povos do planeta, e jamais deve haver rupturas dessa
Natureza.
Quando
se afirma que Jung citou a espiritualidade e a transcendência como modalidades
pertinentes à psique humana, é justamente nesse ponto que ele estuda meios de
ampliar seus conhecimentos, não apenas meramente dos estudos acerca do Oriente,
mas de tribos as mais diversas, de culturas com fenômenos os mais distintos do
que chamamos hoje de aculturamento civilizado, ou etapas de um “processo
civilizatório”, temas que podemos conhecer lendo a literatura do antropólogo
brasileiro Darcy Ribeiro. Nesse ponto Jung veste a ciência com a sabedoria da
arte, da cultura e da citada civilização e suas modalidades, onde por vezes uma
aldeia primitiva possuem arquétipos comuns aos homens de Nova Iorque, ou de
grandes outros centros urbanos, igualmente. Nada diferenciaria uma coisa da
outra, e signos como a cruz seriam mais antigos do que supõe a própria
humanidade. Os sonhos, os mitos, a realidade, tudo seria um rebatimento entre
consciente e inconsciente, e versa o médico sobre a importância de se ressaltar
o inconsciente como fonte inesgotável de expressão, criação e manifestação do
anímico, transcendendo por vezes a racionalidade, mas tangenciando a arte e a
literatura, principalmente no domínio da poesia, por exemplo. A respeito disso
temos o Museu do Inconsciente, no Brasil, que são trabalhos de pintura, gravura
e esculturas que se originaram da lavra de Nise da Silveira, e sua forma de
tratar os pacientes com graves distúrbios psíquicos, e como muitos se
ressocializaram e tiveram o direito e a voz de serem resgatados por suas mãos.
Hoje,
um rescaldo neurótico de conflitos emerge de uma guerra comercial, remontando
algo de guerra fria, mas na verdade são coisas que fazem parte do ser humano,
pois seu lado severamente desumano trás à tona essas questões de não fazer do
planeta um lugar harmônico de vida e de paz. Quando Jung trouxe à tona seus
conhecimentos do mundo oriental, este ainda não havia por ser um novo e
gigantesco império sobre a Terra. A questão toda é sabermos que nós,
ocidentais, em virtude de vislumbrarmos o que pensamos ser uma “ameaça” a um
antigo padrão civilizatório supra nacional, já estamos pensando no Juízo Final,
na forma de um Armagedom, como solução derradeira para tudo o que acontece no
mundo, incluído para a decadência reinante na esfera do Ocidente. Não tentamos
compartir de boas notícias, resistimos a sermos egoístas o suficiente, no sentido
de que se tivéssemos que perder para o outro mundo, que vá tudo pelos ares...
Em meio a esse egoísmo, o mundo cresce, em meio a ele, as coisas se sucedem e
finalmente, em meio à nossa fuga da realidade, os impérios vêm e vão.
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