sexta-feira, 17 de outubro de 2025

A POSSIBILIDADE DOS DIAS


                Verteremos em nosso planejar diante das vicissitudes do tempo o mesmo amálgama que se mede nos ponteiros, em um calendário, nas datas das contas a pagar, na ida ao padeiro, o dia e o dia, mas depois deste, fechamos nossas cortinas, apagamos certas luzes, nos recolhemos e vamos nos encontrar com o repouso acolhedor da noite. Acordara cedo, e vi que, sob o sol, e sobre a calçada, em frente ao portão do vizinho da frente, dormia um viajante, um peregrino das latas, sujo e exangue, que parara certamente sem forças, de qual noite falaríamos, senão certamente de um emaranhado onde a noite se confundiria com o dia e, sabe-se lá se o ser que ali estava não estaria amargando a sede em adquirir, nesse périplo, as latas que não lhe concedem o sossego, o lixo emanado das ruas, seus braços confundidos com o cimento quente, a barba desleixada dos sem tempo, ou nenhum compromisso outro que não fora meramente sobreviver? Pobres almas em tamanho sofrimento que apenas o livro “Ressurreição”, de Tolstói poderia descrever o que seja um tipo de exílio por vários motivos, por vezes penais, mas a pena que impõe a vida a estes seres humanos, não peçamos a tropeçar na carne sem motivo, pobres almas... Cristo levantaria a esses homens do chão, o seguiriam, e Ele seria seu conforto, e o Cristo levaria para um lugar onde as cidades raramente sucede que exista, mas a comunhão com Ele não passaria em um só sítio onde raramente se vê disposta uma mão que auxilie, nos caminhos tortos por onde passam, às centenas, em lugares com nomes santos, como São Paulo, citada mesma, a Capital...

                E o “Creio”, uma das preces mais lindas, encabeçaria com o “Pai Nosso”, estaríeis no céu, meu Pai, para que silenciosamente um pássaro quiçá desse testemunho do sofrimento de um, posto em ti, oh pássaro das alturas, vejo que não tens o preconceito, e voas sobre os ombros de Francisco, comungando na história de um dia possível, de um dia como o outro, onde nos acostumamos com a enfermidade de quem amamos, onde jamais devamos nos acostumar tanto, pois o sofrimento de alguém, mesmo posto em mais conforto, não significa exatamente a separação de uma propriedade, pois a árvore que não foi retirada pode sim significar a vida ela mesma que não se ressente a que alguns ressuscitem de sua condição e possam levar uma vida mais digna. Se você sofre ao ver o sofrimento alheio, você é um bom cristão, pois estará sentindo a cruz solene que outros carregam em sua jornada, e mesmo que a sua seja pesada, não será através de um silenciar em si mesmo que não possa pensar que algumas instituições fariam algo realmente efetivo de guardar esses ditos “problemas” rescindindo suas vidas e liberdade, mas sim arranjando meios que ampliem a libertação, dando sustentação inequívoca e asas espirituais para esses seres humanos.

                Na conformidade quase exata de um trabalho, muitos fogem à luz de seus sistemas, não querem absolutamente viver com os paradigmas do que creem ser um grilhão que os aferre a uma modalidade inequívoca de transformação social que urge tenhamos em nossas veredas plenas rumo a ressignificações outras do que venha a ser efetivamente uma melhor justiça social. O homem, caído no chão, é um problema espiritual, mas igualmente econômico e social... Nesse ambiente, ele não aguenta muito tempo sem usar do álcool e do crack, quem dera, se fosse de outro patamar estaria apenas fumando da erva, mas alguns o fazem com ice, K9 e outras que são sintéticas, e de efeitos para a psique devastadores. E passam os seres, sem nomes, sem identidades, urgindo pela ajuda dos meios que os sustentam até certo ponto, do Governo Popular, um nicho de atenção concedida a esses enfermos de rua e de sombras. Desenganados, os familiares os abandonam, e muitos vêm a ficar em manicômios, pagos pelo Estado, onde os citados familiares apenas os visitam de vez em quando para saber se ainda estão vivos. Viciados a maior parte em álcool e crack, eles revisitam todos os dias seus farnéis, os que estão pelas ruas, em que a proposta do Governo Federal seria instituir cooperativas de catadores, onde poderiam se organizar para fazer frente à exclusão, na direção justa de inclusão e participação de organizações que os permitiriam produzir coletivamente, ao invés de, solitários, serem mais vulneráveis e fracos diante de um mundo que os reduz ao nada existencial. Olho para a frente de casa, já não está mais lá o andarilho, quem sabe conseguira juntar mais peso em alumínio, e quem sabe possua quiçá um barraco na comunidade, pois muitos ainda conseguem esses feitos, de adquirir uma moradia em troca de favores, mas quem dera fosse tão fácil para eles saberem que, não seja através de uma substância qualquer, que estarão fora do sistema, pois dentro deste há centenas, e “ser mais um”, com certeza ainda está dentro do possível quando consideramos os direitos humanos como carta internacional, e a cidadania o único escopo possível do trato humano com o "outro"...

Nenhum comentário:

Postar um comentário