Verteremos
em nosso planejar diante das vicissitudes do tempo o mesmo amálgama que se mede
nos ponteiros, em um calendário, nas datas das contas a pagar, na ida ao
padeiro, o dia e o dia, mas depois deste, fechamos nossas cortinas, apagamos
certas luzes, nos recolhemos e vamos nos encontrar com o repouso acolhedor da
noite. Acordara cedo, e vi que, sob o sol, e sobre a calçada, em frente ao
portão do vizinho da frente, dormia um viajante, um peregrino das latas, sujo e exangue, que parara certamente sem forças, de qual noite falaríamos, senão
certamente de um emaranhado onde a noite se confundiria com o dia e, sabe-se lá
se o ser que ali estava não estaria amargando a sede em adquirir, nesse périplo,
as latas que não lhe concedem o sossego, o lixo emanado das ruas, seus braços
confundidos com o cimento quente, a barba desleixada dos sem tempo, ou nenhum
compromisso outro que não fora meramente sobreviver? Pobres almas em tamanho sofrimento
que apenas o livro “Ressurreição”, de Tolstói poderia descrever o que seja um
tipo de exílio por vários motivos, por vezes penais, mas a pena que impõe a
vida a estes seres humanos, não peçamos a tropeçar na carne sem motivo, pobres
almas... Cristo levantaria a esses homens do chão, o seguiriam, e Ele seria seu
conforto, e o Cristo levaria para um lugar onde as cidades raramente sucede que
exista, mas a comunhão com Ele não passaria em um só sítio onde raramente se vê
disposta uma mão que auxilie, nos caminhos tortos por onde passam, às centenas,
em lugares com nomes santos, como São Paulo, citada mesma, a Capital...
E o “Creio”,
uma das preces mais lindas, encabeçaria com o “Pai Nosso”, estaríeis no céu,
meu Pai, para que silenciosamente um pássaro quiçá desse testemunho do
sofrimento de um, posto em ti, oh pássaro das alturas, vejo que não tens o
preconceito, e voas sobre os ombros de Francisco, comungando na história de um
dia possível, de um dia como o outro, onde nos acostumamos com a enfermidade de
quem amamos, onde jamais devamos nos acostumar tanto, pois o sofrimento de
alguém, mesmo posto em mais conforto, não significa exatamente a separação de
uma propriedade, pois a árvore que não foi retirada pode sim significar a vida
ela mesma que não se ressente a que alguns ressuscitem de sua condição e possam
levar uma vida mais digna. Se você sofre ao ver o sofrimento alheio, você é um
bom cristão, pois estará sentindo a cruz solene que outros carregam em sua
jornada, e mesmo que a sua seja pesada, não será através de um silenciar em si
mesmo que não possa pensar que algumas instituições fariam algo realmente
efetivo de guardar esses ditos “problemas” rescindindo suas vidas e liberdade,
mas sim arranjando meios que ampliem a libertação, dando sustentação inequívoca
e asas espirituais para esses seres humanos.
Na
conformidade quase exata de um trabalho, muitos fogem à luz de seus sistemas,
não querem absolutamente viver com os paradigmas do que creem ser um grilhão
que os aferre a uma modalidade inequívoca de transformação social que urge
tenhamos em nossas veredas plenas rumo a ressignificações outras do que venha a
ser efetivamente uma melhor justiça social. O homem, caído no chão, é um
problema espiritual, mas igualmente econômico e social... Nesse ambiente, ele
não aguenta muito tempo sem usar do álcool e do crack, quem dera, se fosse de
outro patamar estaria apenas fumando da erva, mas alguns o fazem com ice, K9 e
outras que são sintéticas, e de efeitos para a psique devastadores. E passam os
seres, sem nomes, sem identidades, urgindo pela ajuda dos meios que os
sustentam até certo ponto, do Governo Popular, um nicho de atenção concedida a esses
enfermos de rua e de sombras. Desenganados, os familiares os abandonam, e
muitos vêm a ficar em manicômios, pagos pelo Estado, onde os citados familiares
apenas os visitam de vez em quando para saber se ainda estão vivos. Viciados a
maior parte em álcool e crack, eles revisitam todos os dias seus farnéis, os
que estão pelas ruas, em que a proposta do Governo Federal seria instituir cooperativas
de catadores, onde poderiam se organizar para fazer frente à exclusão, na
direção justa de inclusão e participação de organizações que os permitiriam
produzir coletivamente, ao invés de, solitários, serem mais vulneráveis e
fracos diante de um mundo que os reduz ao nada existencial. Olho para a frente
de casa, já não está mais lá o andarilho, quem sabe conseguira juntar mais peso
em alumínio, e quem sabe possua quiçá um barraco na comunidade, pois muitos
ainda conseguem esses feitos, de adquirir uma moradia em troca de favores, mas
quem dera fosse tão fácil para eles saberem que, não seja através de uma
substância qualquer, que estarão fora do sistema, pois dentro deste há
centenas, e “ser mais um”, com certeza ainda está dentro do possível quando consideramos
os direitos humanos como carta internacional, e a cidadania o único escopo possível
do trato humano com o "outro"...
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