domingo, 12 de outubro de 2025

A ESPIRITUALIDADE FLUI COM A VIDA


                Aquilo que não discernimos bem como o “desconhecido”, um enigma, um acaso, uma chave que achamos na rua e “imaginamos” que abra alguma porta: esse ser estranho do que não achemos por vezes saídas fáceis em nós mesmos, esse ser que se nos brota de muitos lados, o ser do “outro” que não vemos em nós mesmos, esse ser que desconhecemos, conforme o citado acima. Quem sabe pode ser algo que fale mais alto a uma vida mais espiritualizada, que se revela no céu, que se revela na vida que flui no asfalto, na luz de uma casa quando a noite se abre, que está nas estrelas nada fugidias de tão sólidas em suas posições, na lua que nos “bebe o olhar”, enfim, esse ser que é a possibilidade de estarmos silenciosamente nos esquecendo de irmos ao primeiro gole do vício, ao primeiro "teco" da noite, à primeira fumada de um baseado, ou mesmo, trôpegos, a uma jornada exaustiva que nos leva, exangues, a uma comunidade para fumar aquela pedra de crack que tanto trabalha-se para obtê-la, no fim da peregrinação rumo ao nada. Tudo aquilo que nos fissure, desde um trago até uma tragada de cigarro, companheiros, são coisas que caracterizam um vício, uma dependência de substâncias. A ausência dessa substância no começo pode nos fazer sofrer, assim como quando usamos uma droga por vezes o sofrimento vem na forma da doença mental que pode nos acometer pelo uso continuado da substância, ou na forma de um enfizema, ou doenças coronarianas ou mesmo o câncer quando do uso do tabagismo: tanto a dependência do álcool e drogas é considerada uma doença, assim como efetivamente o que pode acontecer no uso continuado, na forma de outras comorbidades. Mas será muitas vezes a dor na alma que faz o ser humano consumir a substância qualquer, uma dor que o faz se anestesiar, buscar uma fuga, um escape, um pretexto, e o que antes pode ser uma forma de diversão, em alguns casos, torna-se em grande parte a citada dependência, quando a abstinência nos torna reféns da substância que ingerimos para "sedar a dor".

                Os dedos por vezes cansam sob o tremular da digitação incessante de um escritor, seus relatórios, seus ofícios, mas por vezes a mensagem é algo que o faz prosseguir, como o pianista que teve paralisia em seus dedos e voltou a tocar o instrumento, pois pode fazer parte de sua missão espalhar uma consciência particular e espiritual que o fez prosseguir, quiçá de modo estoico para revelar a sua experiência espiritual, como fluiu a sua vida e como podemos superar desafios os mais pungentes em nossas vidas... 

                O que se vê na noite de um domingo, em certas ruas é, graças a Deus, um silêncio, um descanso, aquelas almas que se recolhem e sabem que o melhor a se fazer é pararem com suas dependências, recriarem laços com a sensatez, pois o final de semana, por vezes no afã, na explosão de se usufruir de momentos efêmeros, onde o álcool e as drogas assumem um viés quase terminante, onde muitos ingressam em hospitais com suas lesões, onde inúmeros são internados na psiquiatria, entre jovens e velhos, moços, entre a madurez de suas certezas e a juventude de suas dúvidas.

                Na realidade, a espiritualidade se revela em um homem que volta seus olhos para o próximo, a possibilidade concreta de, em nome de algo que lhe seja de monta um Poder Sagrado, lhe possa conferir a melhora substancial de que o que de manhã poderia lhe parecer um tormentoso momento, o de sempre, resultado de seus erros do passado, que essa singela singularidade se nos pareça a quem vier, que seja um momento de reflexão de que será sempre na recuperação e preservação da psique através do reino espiritual que o processo de cura se dá, como que por milagre. Algo que esse homem aprendera de caminhos de caminhantes, e sua serenidade espiritual, existencial, anímica, psíquica, mesmo abraçados por uma vida materialmente miserável, mesmo que carreguem duros fardos em seus ombros, como pequenos discípulos do Cristo na questão da penitência e do sacrifício de seus dias.

                Em verdade, em nome de Deus, o Deus que este que vos escreve quiçá veja uma ínfima fração, mas que em sua onisciência não posso sequer conceber, em nome Dele as coisas não se tornam coisas, o ser humano passa a ser tratado com igualdade, e quem sabe um opressor faça brotar em certos momentos a ternura que descansa em paz somente sob as sombras de grandes homens e mulheres...

                Sim, é possível termos a fé inquebrantável, mesmo que alguns dias não sejam muito bons, mas há daqueles, firmados como em um contrato divino, onde estabelecemos laços perpétuos com o amor que se nos brota sem a tradução quase livre que o cárcere das batidas de nosso coração nos faça crer também no sangue e nas trocas gasosas, pois nem só de oxigênio vive o ser humano.

                Aquela gratidão à Nise da Silveira, a tantas as mulheres que, ainda entre nós relembram a mesma espiritualidade e altruísmo de se fazerem valer de uma honra entre os homens por existirem, sua capacidade de liderar, de serem organizadas, e dignificar seu papel entre as melhores criaturas que alguns homens têm a honra de conhecer, e fazem de alguns homens, que porventura sem dúvida também gostam de ajudar aos próximos, uma questão espiritual intensa que rende frutos justamente em dias onde o rancor sobre algo passa a não mais existir, e onde a comunhão entre os seres humanos, independente de que ou do que sejam, transcende tudo e todos na esfera planetária, mesmo as contendas mais cruentas, os impossíveis tratados de paz, ou aquilo que a luz nos traga em seu berço o ventre mesmo de todas as mulheres sagradas que de si e para si tem crescido no grande enigma de sua participação nas sociedades, como pessoas notáveis que merecem ter o reconhecimento inegável de todos os setores sociais, bem como na esfera existencial a consagração primeira de seus papéis como participantes dessa nova humanidade que desponta...

Nenhum comentário:

Postar um comentário