terça-feira, 3 de novembro de 2026

O SISTEMA INACABADO


              Vemos um mundo de fracassos... As coisas não terminam, e antes o que seria um estudo exaustivo de Freud sobre os objetos – que causam as neuroses – o fato de bebedores compulsivos ou adictos sempre serem neuróticos remonta que a fuga do sistema está cada vez mais recorrente e, com razão, complexa. Jung já falava nos complexos como tipos de células que invadiam o ego, com vida própria, poluindo de traumas e histórias passadas, como se tivessem vida própria, onde seus volumes sufocariam a normalidade e dificultariam sua cura. Fatores como o inconsciente pessoal e inconsciente coletivo transpassam a compreensão mesma do amálgama que se torna a psique humana, e será nesse mar inconsequente que, no panorama da medicina, se abraçam tantas as questões da humanidade. A sociedade de consumo descartável, do perecível, dos produtos com prazo de validade posto através do pragmatismo na fragilidade de suas peças, impõe as regras para que o sistema nunca termine com mais duração do que meses ou semanas. Validades alternas surgem, surgem necessidades nunca antes existentes, e o robô passa a ser de importância afetiva, como um silicone de carinhos. No que projetemos o desejo, este passa a tergiversar com a curiosidade e, enquanto a indústria sem freios manda das suas, o meio ambiente sofre com agressões apocalípticas. Geleiras derretem, matadouros abatem milhares de toneladas de animais, e o carma da humanidade sofre e aumenta mais e mais no correr deste, que seria profetizado como um milênio de luz, mas não passa de um vale de sombras... Por isso a importância de sabermos que, neste mundo, os sistemas nunca estão completos, e ele gira como um único sistema, perene mas não eterno, pois as coisas materiais tendem a terminar, e o que antes era um conforto obtido a duras penas pode se tornar uma situação de miséria absoluta, já que muita coisa evanesce no ar, este éter onde a ilusão toma a forma da realidade, e esta só existe na crença em Deus, nosso Pai e Senhor.

              Passamos a ter a Igreja não apenas como lugar santo, como o Corpo de Cristo, mas como base de tudo e refúgio de nossas mazelas, e lá encontraremos não um sistema incompleto construído no mundo pelos homens, mas uma estrutura e uma comunidade eclesial, onde nossa libertação do mundo possa ser levada a cabo. Tudo o que diga respeito mesmo à recuperação das drogas e do álcool, isso deve fazer parte de irmandades, mas quando falamos da espiritualidade simplesmente não estamos estabelecendo paralelos entre essa questão e a religião, pois para quem está na profissão da fé a permanência e fidelidade no meio eclesial é sobremodo importante dentro e fora da Igreja, quando pertencemos efetivamente ao reino de Deus, em nossa vereda devocional mundo afora, mesmo quando nos apercebemos que as coisas do mundo essencialmente não fazem parte de nós mesmos. É na nossa carne que seremos tentados, nas coisas do mundo, e na presença do maligno, que, tal qual uma serpente sorrateira, estará pronta a dar o bote derradeiro. Essa versão previsível em que o próprio sistema se nos descarta pronto a dispensar de cuidados aquilo que vimos nos propondo: tentar uma vida sem mácula, sem maiores pecados, reta e íntegra.

              Navegar pela incompreensão, pela hipocrisia, pelo farisaísmo de muitos, seria algo tão evidente como transcender a maldade através do perdão, por isso talvez por causa desse fato para os santos tenha sido tão difícil estar convivendo com os homens do mundo e suas particularidades...

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