Existiria
uma função na sociedade que fosse mais palpável, quiçá, algo parecido com um
preenchimento da existência, quem sabe uma máquina que falasse, mas de carne e
espírito, com sentimentos, não propriamente sinceros, pois isso seria um
milagre deveras caro para a ciência... A forma e a função caberiam, seria como
fazer um polichinelo sem pernas, como que um exercício militar sem farda, mas
sempre como se a completude esperasse por nós, ainda que no fim da fila. Encarar
de frente que somos ausentes na presença do que porventura projetamos a
ausência, porventura do que não seja a essência do ser, pois nunca estamos
sozinhos e essa é a qualidade, abolida obviamente da função proprietária, que
nos torna corações solitários, quando depositamos em antigos afetos essa conjuração
que escraviza em nossas raízes uma terra infecunda. Seríamos melhores se,
independente da vida afetiva de nosso coração já pleno de dia, quando da
presença já citada de nossos seres, qual uma via de um cãozinho que suja a calçada
simbolicamente na presença de seu dono, a ternura de uma mulher solitária que
apenas gostaria que seu antigo amor tivesse sido mais compreensivo. Que tantos
seriam os ocasos de tanta falta do confiar, se na realidade a coisa mais
própria a se dizer seria, que não estivéssemos tão afeitos às chamadas falhas,
aos nossos erros, mais banais porventura, que outros julgam nos conceder como
amostragem silenciosa de nossas faltas? E talvez nem pudéssemos dizer a
Natureza exata delas, mas na realidade de cada ser humano o coração meio que se
não nos bate muito, o olhar meio que dele participamos um pouco o não olhar,
meio que destoamos de uma vida inteira solitários, nos ocupando compulsoriamente
em coisas para nos ocupar, recuando de uma vida social mais intensa, daquela
que por vezes é quase nula, tirando as partes em que estamos na cápsula
existencial ou redoma em que nos colocamos nessas circunstâncias...
De uma
autoanálise sincera, de um pensamento mais verdadeiro, estaríamos sendo como Kerouac,
um poeta amalucado a escrever a escrita automática, mas pensando muito no que
porventura poderíamos ser enquanto escritores de ares melhores, porquanto o
peso do mundo não caia por cima dos nossos ombros com toda a sua envergadura,
mesmo nos tempos do hoje. Seríamos melhores se fôssemos achar que seríamos mais
mortais do que os insetos, e realmente a única relação é que vivemos um pouco
mais. Mas a explicar que não seremos os donos do mundo, isso já é a condição
inequívoca de sabermos que fora de nosso escopo familiar não há donos, e nem
mesmo dentro dele. O patriarca sabe tanto de sua casa como a matriarca sabe da
sua, a mãe solteira sabe de sua prole, assim como o operário sabe de seu
trabalho, dispensando as relações que são de afeto, mas sempre reiterando que
relações proprietárias não seriam tão próximas se de fato uma mulher sabe de
seus relacionamentos e um homem dos seus. E se, vencidos os traumas decorrentes
da melancolia da falta do ente querido, seja ele narcisista, seja ele a
projeção narcísica que fazemos desse ser, seja ele ou ela homem ou mulher de
natureza intempestiva, sejam todos os critérios dentro de uma falsa moralidade,
ou quem sabe a vertente máxima da aproximação não nutra significados maiores, a
questão é recriar laços com o que julgáramos quase improvável, por vezes
tateando no escuro, mas sempre obviamente com a cautela necessária de não
praticar um erro que porventura estaríamos cometendo conosco mesmos, mesmo
tendo a certeza pragmática e solene que podemos ser felizes sendo quem somos, a
princípio, libertos primeiro, e somados depois...
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